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De tradutora interna a freelancer – uma transição entre modos de vida

“Olá! Sou a Mónia e sou tradutora freelancer.”

Não estava numa reunião dos AA, mas em 2014, treze anos depois de me licenciar, voltava a sentir-me como se tivesse acabado de sair da faculdade: frágil, inexperiente, e insegura, sem saber para que lado me virar. Trabalhara durante sete anos como tradutora interna em duas agências de tradução, mas não me sentia verdadeiramente feliz com o tipo de trabalho que executava. O teor demasiado técnico e monótono das traduções que fazia era desmotivante. Em contrapartida, o ambiente de trabalho era óptimo, os chefes daqueles que já não se fazem e o salário acima da média. Ainda assim, sempre que fazia uma análise da minha situação profissional, percebia que algo tinha de mudar. Foi com o nascimento da minha segunda filha que decidi transformar a forma como passava o tempo quando não estava com as minhas filhas.

 

Podia dizer que segui um plano meticuloso e que, quando me despedi, já tinha uma farta carteira de clientes, mas seria mentira. Para ser fiel ao curso dos acontecimentos, agi de modo impulsivo e bastante descuidado, o que me valeu uma boa dose de ansiedade nos primeiros tempos. Estava numa situação completamente nova para mim. Já contava com sete anos como tradutora e, no entanto, sentia-me uma caloira. Não tinha clientes. Não percebia nada de fiscalidade, seguros obrigatórios ou prestações à Segurança Social. Não conhecia as empresas de tradução e tinha apenas uma vaga ideia dos preços praticados. Acontecia que já não era novata na tradução, muito menos recém-licenciada, e o currículo era a única coisa que me podia valer.

Custa entrar no mercado da tradução e o início pode ser algo espinhoso se não nos soubermos mexer. Foi só quando me desvinculei da antiga empresa que me pude dedicar plenamente à angariação de clientes. Dei os primeiros passos óbvios: inscrevi-me em sites de procura e oferta de serviços de tradução e actualizei o meu perfil noutros, mandei imensos currículos e entrei em contacto com colegas antigos ou pequenas agências para quem tinha feito trabalhos há uns anos. Sem o saber, estava a fazer networking, que foi algo que me ajudou imenso ao princípio e que recomendo vivamente. Fui almoçar algumas vezes com antigos colegas de tradução que haviam enveredado pelo mesmo caminho e que, amavelmente, me deram dicas e conselhos que se viriam a revelar muito úteis.

No entanto, os primeiros meses não foram fáceis. Se, por um lado, me sentia aliviada e feliz com a minha decisão, contente por ser dona do meu tempo e tomar as rédeas da minha vida, por outro lado, dava por mim a contestar esta mesma decisão. Será que fiz bem? Será que vai resultar? Será que vou ser capaz? Em semanas de maior sufoco, quando os projectos recebidos não davam sequer para pagar a conta da luz, perguntava-me em desespero: “Mas o que foste tu fazer, a deitar assim fora um contrato sem termo pelo vão sonho da independência?” Era nestas alturas que era assombrada por tudo aquilo que tinha ouvido dizer sobre trabalhar por conta própria: “é instável”; “não tens ordenado fixo”, “o mês seguinte é sempre uma incógnita”, “não podes tirar férias”, “tens de trabalhar aos fins-de-semana para conseguires manter um ordenado decente” e outros cenários dantescos.

Felizmente, esta situação não se arrastou por muito tempo e tudo não passou de medo de principiante. O início pode ter sido instável (seria estranho se não fosse), mas hoje em dia tenho um ordenado que, tirando as oscilações naturais do mercado que vamos aprendendo a conhecer e antever, nunca foge muito da média; 80% dos meus clientes pagam em dias fixos, o fantasma do mês seguinte deixou de me amedrontar, tenho tirado mais férias do que alguma vez tirei sem nunca perder clientes, e contam-se pelos dedos os fins-de-semana que passei a trabalhar. Há esperança, então.

Mas como foi que cheguei aqui? Bom, não tenho nenhuma fórmula mágica. Ainda assim, algo devo ter feito bem e tornar-me freelancer foi o melhor que me podia acontecer. Adoro ser dona do meu tempo, poder comprar um bilhete de avião sem ter de esperar pela marcação das férias da empresa nem estar dependente das férias dos outros. É bom tirar o dia se me apetecer (ou precisar) ou ir ao ginásio a meio da tarde. Às vezes, para poder fazer certas extravagâncias durante o horário de trabalho que estipulei para mim, tenho de trabalhar à noite, mas são escolhas que se fazem e estou sempre consciente de que é uma bênção ter a oportunidade de o fazer.

Nunca quis que a segurança de um ordenado fixo fosse a única coisa a prender-me a um emprego. Num mundo ideal, todos gostariam do seu trabalho e empenhar-se-iam ao máximo, acordariam motivados para ir trabalhar e dar-se-iam bem com os chefes e colegas de equipa. Mas não vivemos num mundo ideal. Cabe a cada um fazer o possível para viver feliz de acordo com as suas circunstâncias. Às vezes, é preciso fazer mudanças de fundo. Para isso, é preciso ter coragem. Ter coragem não significa que estejamos 100% seguros da nossa decisão. É normal duvidar. Saudável, até. Ao início duvidei todos os dias até ter começado a perceber que há dúvidas que não fazem sentido, há dúvidas que nos fazem parar, mas também há dúvidas que nos fazem continuar e procurar soluções. Procurei apoiar as minhas dúvidas na experiência e nas certezas de amigos, colegas e família. Muita gente me chamou louca. Em tempos de crise, eu tinha deixado um emprego estável e bom. Mas persisti e consegui vingar. Ao contrário do que possa parecer, ser (tradutor) independente não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Não foi apenas uma questão de sorte ou o estar no sítio certo à hora certa. Foi acima de tudo o resultado de trabalho e persistência e isso está ao alcance de qualquer um. Sobre esse trabalho e os passos que dei escreverei no próximo artigo. Até lá, boas traduções.

 

 

Sobre a autora:

Mónia Filipe deu aulas de português para estrangeiros na Alemanha, mas foi com a tradução que descobriu a sua paixão. Depois de sete anos como tradutora interna em dois gabinetes de tradução em Portugal, em 2014 enveredou pelo caminho freelancer sem nunca se arrepender. Trabalha essencialmente com a língua alemã. De vez em quando, por puro prazer, faz legendagem, mas são as traduções técnicas e as filhas que lhe ocupam a maior parte do tempo.
 

Mónia Filipe, Associada n.º 53 e Mentora do Programa de Mentoring da Aptrad




Publicada em: 10/01/2017


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“Se eu não gostar de mim...”

Provavelmente ainda haverá quem se lembre deste anúncio publicitário. Provavelmente este anúncio ajudou-me a verbalizar e a assumir a minha auto-estima. Gosto de mim e sei o meu valor – pessoal e profissional – confio no meu julgamento e esforço-me (depois de me penitenciar) para corrigir os meus erros. E como erro q.b. estes momentos de reflexão são uma constante. Alguns dirão que sou uma gabarola. Não creio que seja. Quem me conhece bem sabe disso; basta verem a minha contribuição escassa nas redes sociais para pouco saberem sobre mim (excepto para aqueles que se derem ao trabalho de ler nas entrelinhas, algo que duvido que façam amiúde, “nesta sociedade de consumo imediato”, onde parece nunca haver tempo a perder).

Tão-pouco esta pseudocrónica é sobre mim. Considerem estas primeiras linhas como uma breve introdução, como um espreitar curioso pela fechadura.

O que interessa de facto pensar é na nossa auto-estima enquanto profissionais das diversas áreas da tradução. Nem todos os tradutores são bons, longe disso. Não há nada de novo nesta afirmação, porque esta realidade é transversal a todas as profissões. Mas se cada tradutor tiver a auto-estima na medida correcta (ser bom juiz em causa própria, evitando ser uma criatura inflamada) saberá em que “campeonato” deve e pode jogar e quanto deve e merece receber pelos serviços que presta.

“Olha, lá vai ela falar de preços!”, pensarão alguns. Não, não vou. O valor pelo qual aceitamos prestar um serviço é apenas uma parte da equação. Se por um lado, ao aceitarmos valores com bom senso, nos valorizamos e nos prestigiamos, por outro lado, dignificamos o trabalho de todos os colegas e a nossa profissão em geral. São duas faces da mesma moeda.

Haverá sempre os chamados biscateiros – que sejam bons à sua quota e que saibam o lugar deles no mercado. Pessoalmente não dispenso muito tempo a pensar neles. Mas quando profissionais qualificados (certamente sem a devida auto-estima) se comportam como biscateiros, então há muitos motivos para nos preocuparmos todos.

Acreditem que será muito difícil afirmarmos o nosso valor depois de nos termos colocado ao nível do amadorismo. Não aceito de ânimo leve a razão das contas para pagar no final do mês. Antes de mais, precisamos de saber se queremos ter esta aflição mensal todos os meses da nossa vida ou se aguentamos estoicamente alguns meses e garantimos todos os meses que se seguirão. Naturalmente que alguns dirão que é fácil falar, mas difícil de fazer – também aqui não há novidade; sempre assim foi e acredito que sempre assim será. A esses peço que ponderem seriamente e que considerem até mudar de profissão. Não desperdicem os vossos neurónios e talentos para garantir esses vossos rendimentos mínimos. Aos outros recomendo que parem, respirem fundo, aguentem e no fim sairemos todos, em conjunto, como classe unida, a ganhar.

Já pensaram no valor do vosso trabalho para as empresas com que trabalham? Agora pensem uma vez mais: se não houver quem esteja disposto a aceitar o miserabilismo, acham mesmo que as empresas não vão abrir os cordões às bolsas para alcançar os seus lucrativos objectivos? Essas empresas precisam de nós; se querem um trabalho bem feito têm de fazer por merecê-lo, ou seja, pagar por isso. Pensem outra vez: não temos de jogar todos na liga dos campeões da tradução, mas se nos afirmarmos como profissionais qualificados, não podemos aceitar menos do que um lugar na primeira liga.

Sobre a autora:

Maria da Graça Pereira trabalha como tradutora independente desde 2009 e até à presente data nunca se arrependeu de ter tomado este rumo profissional.

Trabalhou anteriormente durante 10 anos na editora Campo das Letras, como coordenadora editorial, e teve o enorme privilégio de conviver diariamente com autores, tradutores, ilustradores e de ler textos fantásticos que, de outra forma, nunca teria lido.

Continua a manter-se ligada a editoras e a circulos literários, porque acredita no prazer e no poder de um bom livro.

 




Publicada em: 28/12/2016


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