Tradutores e Intérpretes pelo Mundo – Rafa Lombardino

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Tradutores e Intérpretes pelo Mundo – Rafa Lombardino

Conversamos com a Rafa Lombardino sobre alguns aspetos da sua profissão, sobre a importância do associativismo e ainda sobre alguns conselhos para a nova geração de profissionais.

APTRAD: Fale-nos um pouco sobre si, sobre como começou a sua carreira e o que é que a levou a escolher esta profissão?

Eu caí na tradução meio que de paraquedas. Sempre gostei de idiomas e sou apaixonada por cinema e literatura, então consumia livros traduzidos e legendas, mas só fui entender que poderia realmente fazer disso uma profissão quando já estava trabalhando como tradutora há uns dois anos. Até então, era um “bico”, como dizemos no Brasil, pois meu trabalho formal era como professora de inglês enquanto eu estudava jornalismo. Na faculdade, tínhamos uma aula chamada “Inglês Instrumental”, cujo objetivo era familiarizar os futuros jornalistas com técnicas de tradução para lerem notícias em inglês e identificarem as informações principais a fim de produzirem notícias em português. O professor notou que eu não estava traduzindo palavra por palavra, mas já reescrevendo o conteúdo de forma natural. Por sorte, ele tinha uma empresa de tradução com a esposa e eles me indicaram o caminho para eu me assumir como tradutora profissional.

APTRAD: Como descreveria um “dia normal” na sua vida profissional?

Bom, no momento em que fazemos esta entrevista, infelizmente, acredito que ninguém esteja tendo uma vida “normal” em nenhum lugar do mundo, pois estamos em meio à pandemia da COVID-19. Mesmo assim, tenho tentado manter a rotina profissional, estando disponível aos clientes de segunda a sexta, das 8h às 17h, no horário da Califórnia. Porém, sempre tento me sentar ao computador mais cedo, podendo ter um horário ininterrupto para me dedicar a um projeto sem ter a obrigação de ficar de olho nos e-mails, ou até para realizar atividades paralelas, como corrigir a lição de casa dos meus alunos de tradução, gravar episódios do meu podcast, ou investir no meu marketing pessoal e da minha empresa. Ou seja, mesmo trabalhando de casa, mantenho um expediente para trabalhar de maneira sustentável e eficiente. Uma coisa que mudou desde o surgimento do coronavírus e a ordem de permanecer em casa é que tento fazer intervalos diariamente antes das refeições para fazer o que seria o equivalente às aulas de educação física dos meus filhos, então fazemos exercícios com o YouTube na garagem ou vamos dar uma caminhada ou corrida pelo quarteirão ou nas trilhas próximas, ainda mantendo o distanciamento social. Além disso, notei que o meu desgaste mental e emocional está sendo maior, então encerro mesmo o trabalho às 17h e vejo tevê com o meu marido depois do jantar para espairecer, sendo que anteriormente eu até aproveitava uma duas horinhas antes de ir dormir para traduzir algumas páginas de um livro. Hoje em dia, já não consigo manter o nível de atenção após o jantar, então estou aproveitando ao máximo o expediente formal mesmo.

APTRAD: É membro de alguma associação/organização profissional? Se sim, o que a levou a associar-se e, se não, porque ainda não o fez?

Sim, sou afiliada da Associação Americana de Tradutores (ATA) desde meados da década de 2000. Inicialmente, o objetivo era passar nos exames para ser credenciada, o que fiz em 2007 em inglês-português e em 2013 em português-inglês. Porém, só comecei a participar ativamente em 2009, quando a ATA comemorou 50 anos de associação e o congresso foi realizado em Nova Iorque. Desde então, participei de dez congressos e passei a integrar a Divisão da Língua Portuguesa (PLD), atuando como editora do blog (2014-2017) e como administradora (2017-2019). Recentemente, voltei a atuar como editora do blog, pois gosto de reunir o útil ao agradável, assim ainda exerço minhas atividades como jornalista falando do ramo de tradução e interpretação.

APTRAD: Pela sua experiência, o que faz um “bom” profissional nesta área?

Realmente, não basta ser bilíngue e gostar de idiomas. O principal para o tradutor profissional da era digital é saber usar a tecnologia ao seu favor, não só no dia a dia da tradução, mas também para encontrar clientes, manter contato com os colegas e se aprimorar. O tradutor de hoje em dia também precisa se diversificar. Sim, é importante ser especialista em um ramo determinado, o que no meu caso é a tecnologia da informação e a comunicação corporativa, mas também aprendi sobre outras áreas e fui ampliando os meus conhecimentos de acordo com as necessidades do cliente, como é o caso da área de meio ambiente e segurança, pois um cliente precisava de treinamento traduzido para os funcionários no Brasil, ou na área de educação, pois existem crianças brasileiras que vêm estudar nos Estados Unidos e precisavam de apoio na hora de se adaptarem ao ensino americano sem ainda falar inglês. Ou seja, é necessário ser profissional e pensar em si mesmo como um microempresário, não apenas como um autônomo que fica aguardando que a demanda venha de fora; é preciso correr atrás para manter uma operação diária sustentável.

APTRAD: O que gosta mais e o que gosta menos na sua profissão?

O que eu mais gosto é de me sentir produtiva e eficiente, de concretizar o meu trabalho e oferecer serviços de comunicação que vão ajudar desde empresas a fecharem contratos ou treinarem seus funcionários internacionais até ajudar pessoas físicas a entrar numa faculdade americana, validar as suas credenciais profissionais para conseguir um emprego no exterior, ou então proporcionar diversão e informação para quem lê os livros que eu traduzo ou assiste aos filmes, seriados ou documentários que eu legendo. Ou seja, a sensação de satisfação, de dever cumprido, é o que mais me motiva como profissional. Porém, a parte mais chata da profissão é a incerteza. É ótimo depender só de si mesmo para fazer um bom trabalho, mas é péssimo depender dos outros para receber projetos, pois é necessário convencer os clientes não só de que você está qualificado, mas também de que o investimento deles é justificado, pois muitos ainda não compreendem o que é tradução.

APTRAD: Que conselho daria a alguém que quer tornar-se tradutor e/ou intérprete?

Praticar muito e obter feedback de clientes ou colegas, sempre que possível, para continuar se aprimorando. Encontrar um programa de treinamento que possa ajudá-lo a desenvolver as suas habilidades, ou até mesmo um mentor que possa ajudá-lo a direcionar a sua carreira de maneira mais individualizada. Isso faz todo o diferencial na hora de se desenvolver como profissional e atingir um nível de operação sustentável (leia-se: carga de trabalho que lhe permita pagar as contas e levar uma vida razoável). Isso seria para a parte profissional. Porém, é fundamental também que os tradutores continuem desenvolvendo seus conhecimentos linguísticos. Sempre ouvimos por aí: “A língua é viva!” Concordo, pois novas expressões vão aparecendo e é necessário manter-se atualizado quanto ao uso das suas línguas de trabalho (principalmente a língua de chegada!) para poder traduzir algo de maneira correta e eficiente. Estou fisicamente longe do Brasil há quase 18 anos, mas isso não me impede de me manter conectada à minha língua e cultura, graças à tecnologia e à interação com os colegas de profissão, com os amigos e a família. De nada adianta alguém ser supereficiente como tradutor, mas não garantir a comunicação apropriada entre quem escreveu o material original e quem vai ler a tradução que você produz.

APTRAD: Alguma coisa mais que gostasse de partilhar com os nossos leitores?

Só queria agradecer a oportunidade de falar com os leitores do blog da APTRAD e dizer que estou à disposição para quem quiser trocar alguma ideia, pois se tem uma coisa que eu adoro é conversar sobre tradução e aprender com perspectivas diferentes e com as experiências dos colegas. Acho que, acima de tudo, desejo que todos se mantenham em segurança durante a pandemia e continuem se aprimorando e acreditando que o seu trabalho é importante para o mundo.

APTRAD: Muito obrigado, Rafa, por ter respondido às nossas perguntas!

Para saber mais sobre a Rafa Lombardino, pode seguir as suas redes sociais: Facebook [http://bit.ly/T3-FBPage], LinkedIn [https://bit.ly/Rafa-LinkedIn], Twitter [http://bit.ly/RL-Twitter], Instagram [https://bit.ly/Rafa-IG], YouTube [http://bit.ly/T3-YouTube] e o podcast Translation Confessional [http://bit.ly/TC-podcast]. Para saber mais sobre suas aulas, visite as páginas da UCSD Extension sobre “Introduction to Subtitling” [http://bit.ly/Sub-Class-UCSDExt] “Introduction to Swordfish” [http://bit.ly/IntroSwordfishClass] e “Tools and Technology in Translation” [http://bit.ly/T3-Class-UCSDExt], assim como o livro inspirado nessa última aula [http://bit.ly/T3-book].

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Biografia:
RAFA LOMBARDINO nasceu no Brasil e mora na Califórnia desde 2002. Concluiu o curso técnico profissionalizante em Ciências da Computação no ensino médio e é bacharel em Comunicações Sociais, formando-se em jornalismo. Começou a trabalhar como tradutora em 1997 e obteve credenciamento da Associação Americana de Tradutores (ATA) nas combinações inglês-português e português-inglês após ser aprovada em ambos os exames de tradução. Também obteve o certificado profissionalizante em tradução de espanhol-inglês pelo programa de extensão da Universidade da Califórnia em San Diego, onde passou a dar aulas de tradução em 2010, vindo a publicar o seu livro “Tools and Technology in Translation”, baseado em uma de suas aulas. Atualmente, é a diretora da Word Awareness, pequena rede de tradutores que trabalham juntos em projetos multilíngues. Rafa também traduz nas combinações espanhol-português, italiano-português e italiano-inglês e se especializa em tecnologia, comunicação, marketing, educação, meio ambiente, saúde e bem-estar, literatura e audiovisual.